terça-feira, 30 de julho de 2019

Relato Torrencial


Era noite e chovia bastante. Mas, chovia balas e não canivetes d'água. Eu não conseguia enxergar bem. Fora tudo muito rápido e turvo. Porém, vi muitas armas, fumaça, gritos, uniformes de policiais e dor. Além disso, vi-me completamente perdido em meio a essa chuva torrencial, reconhecendo apenas a imagem borrada de um familiar e a morte dançar sob o cair desses tiros. Vinham disparos de todos os lados e, com isso, o desespero impresso no meu rosto. Tentei em vão não me molhar nessa tempestade, contudo, uma bala mergulhara na minha têmpora e senti, intensamente, ardentemente, minha alma se evaporar do solo do meu corpo. Embora ofegante, ainda trocara algumas palavras com um conhecido, mas era meu fim. Não consegui fazê-lo por muito tempo. Cerrara meus olhos para a vida, porém, logo em seguida, conseguira abri-los, com luta e roído pelo medo, para a realidade. Acordara-me de mais um devaneio noturno.

(Sousa Neto)

Relato Assombroso


Eu quis e até tentei chamar alguém, mas o medo me asfixiara a garganta me impedindo de gritar depois que acordei. Eram quase três horas da madrugada. Contudo, com uma rapidez tão grande, consegui me libertar das correntes do medo que prendiam meu corpo e me "casulei" com o lençol. Entretanto, não gritei. Apesar de tudo isso consegui voltar ao descanso, mas, infelizmente, retornei para os tenebrosos devaneios dos quais não consigo me recordar e novamente fui arrastado pelo medo sem saber se estava acordado ou dormindo. Diante disso continuei a ser imobilizado e tendo a sensação de que eu tivera uma companhia ao lado da minha cama enquanto lutava, mais uma vez, para tentar me despertar, e que havia sentido o meu lençol ser puxado lentamente pelo pé. Fora, na noite de ontem, mais um pesadelo rotineiro, horrível e infernal, pelo qual atravessara, porém com uma realidade tão absurda que não sei se era de fato apenas imagens oníricas, nebulosas e assombrosas que eu estivera vivendo. Sei que eu estava sofrendo e vi, com isso, meu sono ser roubado.

(Sousa Neto)