terça-feira, 30 de julho de 2019

Relato Torrencial


Era noite e chovia bastante. Mas, chovia balas e não canivetes d'água. Eu não conseguia enxergar bem. Fora tudo muito rápido e turvo. Porém, vi muitas armas, fumaça, gritos, uniformes de policiais e dor. Além disso, vi-me completamente perdido em meio a essa chuva torrencial, reconhecendo apenas a imagem borrada de um familiar e a morte dançar sob o cair desses tiros. Vinham disparos de todos os lados e, com isso, o desespero impresso no meu rosto. Tentei em vão não me molhar nessa tempestade, contudo, uma bala mergulhara na minha têmpora e senti, intensamente, ardentemente, minha alma se evaporar do solo do meu corpo. Embora ofegante, ainda trocara algumas palavras com um conhecido, mas era meu fim. Não consegui fazê-lo por muito tempo. Cerrara meus olhos para a vida, porém, logo em seguida, conseguira abri-los, com luta e roído pelo medo, para a realidade. Acordara-me de mais um devaneio noturno.

(Sousa Neto)

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